Gestão

Cliente inadimplente: o que fazer quando o programa do governo não resolve mais

Com o fim do Desenrola 2.0, empresas precisam de estratégia própria contra a inadimplência. Veja opções práticas e como decidir com seu contador.

O problema não é a dívida, é o que você faz com ela

Se a sua empresa vende a prazo, oferece parcelamento ou trabalha com convênios e planos, você já sentiu na pele o que é ter uma carteira de recebíveis travada. Durante um tempo, programas como o Desenrola serviram de válvula de escape para negociar dívidas de clientes em condições facilitadas. Mas o prazo desse tipo de programa é limitado, e quando ele se encerra, o problema da inadimplência não desaparece — ele só volta a ser 100% seu.

Empresas de todos os portes estão percebendo isso agora e correndo atrás de alternativas próprias para lidar com clientes que não pagam. Duas frentes têm ganhado força: a venda de carteiras de recebíveis inadimplentes e o uso de ferramentas de dados para prever atraso antes que ele aconteça. Nenhuma das duas é exclusividade de grande empresa — e é sobre isso que vale parar para pensar no seu negócio.

O que é vender uma carteira de recebíveis (e por que isso mudou)

Vender carteira de recebíveis inadimplentes significa repassar o direito de cobrar uma dívida para outra empresa, especializada em recuperação de crédito, em troca de dinheiro à vista — geralmente um valor menor que o total da dívida, mas que entra no caixa agora, sem esforço de cobrança da sua parte.

Até pouco tempo, essa era uma operação típica de banco grande, com carteiras de dezenas de milhões de reais. O que mudou é que esse mercado passou a atender operações bem menores, dentro da realidade de pequenas e médias empresas. Ou seja: uma clínica, uma escola, um prestador de serviço com carteira de inadimplência relevante — mesmo que pequena perto dos números de um banco — hoje consegue negociar esse tipo de operação com fintechs especializadas.

Antes de considerar essa opção, vale entender:

  • Você abre mão de parte do valor da dívida em troca de liquidez imediata e menos trabalho de cobrança;
  • A gestão da cobrança passa a ser de outra empresa, o que tira o desgaste de relacionamento com o cliente das suas costas;
  • Faz mais sentido quando a inadimplência já está represada há tempo e a cobrança interna não está trazendo resultado;
  • Não é a mesma coisa que factoring tradicional — vale entender com seu contador ou advogado as condições contratuais específicas de cada operação antes de assinar qualquer coisa.

Prevenção: por que esperar o atraso acontecer sai mais caro

A outra frente que empresas estão adotando é usar dados do próprio negócio para identificar sinais de atraso antes que ele vire inadimplência de verdade. Isso pode ser desde um controle simples de comportamento de pagamento — quem sempre paga em dia, quem começou a atrasar, quem pede prorrogação com frequência — até ferramentas mais sofisticadas de análise que cruzam esse histórico com outras informações de risco.

O princípio por trás disso vale para negócio de qualquer tamanho:

  • Cliente que atrasa uma vez tem mais chance de atrasar de novo — isso deveria mudar a forma como você concede prazo ou parcelamento para ele daqui para frente;
  • Negociar no primeiro atraso é mais barato que negociar depois de 90 dias parado — quanto mais tempo passa, menor a chance de recuperar o valor integral;
  • Ter um processo simples de régua de cobrança (lembrete antes do vencimento, contato no dia seguinte ao atraso, proposta de acordo em X dias) evita que a dívida vire um problema estrutural de caixa.

Você não precisa de um sistema caro de inteligência artificial para começar. Uma planilha bem organizada com data de vencimento, histórico de pagamento e alertas automáticos já resolve boa parte do problema para negócios pequenos e médios.

O consignado privado também mudou de patamar

Vale um alerta paralelo para quem oferece ou intermedeia crédito consignado privado para funcionários: houve mudança recente no teto de juros permitido nesse tipo de operação, o que tem levado empresas do setor a também buscar reorganização de suas carteiras e condições comerciais. Se esse é o seu segmento, ou se sua empresa oferece esse benefício aos funcionários através de parceiros, vale revisar os contratos vigentes com atenção redobrada.

O que fazer agora, na prática

Se sua empresa está com inadimplência acumulada e contava com programas de renegociação do governo para dar um respiro, o momento é de organizar a casa com ferramentas próprias:

  1. Levante o tamanho real do problema — quanto você tem parado em recebíveis vencidos, há quanto tempo, e qual a chance real de receber cada faixa dessa dívida;
  2. Separe o que dá para negociar diretamente do que já está tão antigo que compensa mais vender ou terceirizar a cobrança;
  3. Avalie o custo-benefício de vender parte da carteira — nem sempre é a melhor saída, mas para quem precisa de caixa imediato pode valer mais que continuar tentando cobrar sozinho;
  4. Implemente uma rotina mínima de acompanhamento de pagamento antes que o atraso vire crônico;
  5. Leve os números para o seu contador antes de fechar qualquer operação de venda de carteira ou negociação em massa — o impacto contábil e tributário dessas operações varia conforme o tipo de negócio, o regime tributário e a forma como a dívida foi originalmente registrada.

A inadimplência de clientes não é um problema que se resolve com um programa de governo pontual. Ela exige rotina, dado e decisão rápida. Quanto antes sua empresa estruturar isso internamente, menos vai depender de socorro externo na próxima vez que o cenário de crédito apertar.

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